domingo, 5 de janeiro de 2020

A DITADURA DA DOÇURA




DEDICO ESTA POESIA ÀS DOCES CRIANCINHAS E À DOCE CRIANÇA QUE FUI UM DIA
  

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A MINHA DOCILIDADE INFANTIL
ME RENDEU  APROVAÇÃO
DA BOA MENINA
MENINA BOA DE LIDAR
DOCINHA!
FEITO LARANJA LIMA
FÁCIL DE CHUPAR
E BAGAÇADA SE TORNAR

CORPO E ALMA DÓCIL
DOCE FRUTO PERMITIDO 
BAGAÇADO PELO DESEJO ALHEIO
DE NÃO SER INTEIRA
AZEDA, PICANTE, ÁCIDA
APIMENTADA, AMARGA , SALGADA
VALIDANDO A DOÇURA COMO LEI 
 OS OUTROS SABORES, DISSABORES

NA LEI DA DOÇURA
A REGRA É “NÃO SER”
SER UM CÓDIGO DE BOA CONDUTA
FALE MANSO
FALE BAIXO
NÃO FALE
CALE-SE!

O EGO TIRÂNICO DE FALA MANSA
TRAVESTIDO DE GENTE EQUILIBRADA
VÊ PECADO EM TUDO
QUE NÃO O ACALENTE
ESPALHA SEU VENENO DOCE
AGREDINDO COM DOÇURA
O SUPOSTO DISSABOR

NO UNIVERSO MONOTEÍSTA 
 DEUS É DOCE
NÃO HÁ ESPAÇOS PARA A DIVERSIDADE DIVINA
ABOMINA-SE O DEUS PICANTE
REPELE-SE O DEUS AZEDO
DESPREZA-SE O DEUS AMARGO
COAGE-SE O DEUS SALGADO
IMPONDO A ORDEM DO SABOR CORRETO

A PESSOA CORRETA
SE ENCHE DE ASCO
DE TUDO QUE NÃO SEJA
 PARECIDO COM ELA
COM AQUILO QUE SE TRANSFORMOU
SUBMETIDA  AO EXERCÍCIO CONSTANTE
DE UMA EDUCAÇÃO RETA
QUE TRAFEGA SEGURA
EM VIAS DE MÃO ÚNICA

E ASSIM A GENTE SEGUE...
SEMPRE NA MESMA DIREÇÃO
SE LAMBUZANDO DE DOCE
SE VICIANDO NELE
TRANSFORMANDO AUTÊNTICAS CRIANÇAS
EM BAGAÇOS E  DÉBEIS CRIATURAS
QUE QUANDO FALAM
FALAM BAIXO E MANSO
CONFECCIONANDO UM FALSO SILÊNCIO
QUE AGRADE A TODOS

domingo, 3 de fevereiro de 2019

PORCOS



Dedico esta poesia aos porcos transportados naquele caminhão fedorento que transitava pela estrada mineira. Sem poder ultrapassa-lo tive que suportar o mal cheiro não só daqueles animais, mas de tudo que os fazem vítimas da sujeira de um mundo que lhes nega o direito de existir como animais e lhes impõe o dever de ser carne.
"Porco"! Quisera eu reverenciar não só a palavra, mas o animal que a representa. No entanto, o homem precisa simbolicamente projetar a sua sujeira, gula e luxúria num lugar que não seja ele mesmo. 





Quem são os verdadeiros porcos?
Suínos aprisionados em ceva
Ou gente suja
Aprisionada ao Ego faminto
Que devora e caga
Fedendo e sujando
O que deveria manter limpo?

Quem é mais porco?
Suínos condenados à morte
Ou quem os condenam?
Se fazendo Deus
E de Deus, a sua semelhança
Ditam a sujeira
Que cremos ser limpa

Quem é mais porco?
Suínos na pocilga
Que fede a ração que defeca,
Ou esta gente na politica
De se fazer bonzinho
Que fede o poder
Que castra nosso olfato?

O que é mais porco?
Suínos engordados para o corte
Ou o corte na  conta dos fracos
Para engordar os porcos do poder
 Que cevam impostos e  altos juros
Aumentando as cifras da sujeira
Defecada sobre os seres frágeis?

Quem é mais porco?
Aquele que na carência da palavra
No berro doído de seu SER
Não é ouvido pelos surdos do poder?
Ou esta gente porca,
Poderosa
Que cala vozes espargindo terror?

Com atitudes politicamente corretas
Ou porcamente corretas
Esta gente transforma suínos em porcos
Ou em lindos cofrinhos
Simbolicamente significativos  
Faz da carne o seu sustento
E da hipocrisia o seu alento

Quisera o sorriso quando me resta o choro
A beleza e a força suína
Encoberta pelo véu da barbárie
Encobre a visão bonita que deles gostaria ter
Vejo a escravidão e o medo
Sinto mais do que vejo
Minha angústia e impotência

Sinto o cheiro podre de fezes
Quando poderia respirar
Fedô das ditas suinoculturas
Verdadeiros campos de concentração
Fedô de porcos  enjaulados em caminhões
Espargindo pelas estradas
A catinga das suas últimas horas de “desvida”

O destino dos suínos
É ditado pelo Deus gente
Que em sua diabólica Glória
Abençoa a insanidade
Transformando em loucura
Tudo que transcende a debilidade humana
 Ou joga luz sobre a sombra de sua  inconsciência

O Deus gente
Trafega pela contramão
 Na estrada da vida faz vítimas
Se sente o dono da via
Faz leis que favorecem
O seu próprio trânsito
Ultrapassa quando deveria estacionar

Esse Deus Gente
Faz com a sua própria gente
Porcos da vez,
Vezes sem conta.
Faz com tudo que é vida,
Porcos sem vez.
Era uma vez...

Esta gente fantasiada de Deus
Desfila em seus cargos alegóricos
Fazendo da tragédia do outro a sua festa,
Um carnaval que dura o ano todo.
Tempo sem fim;
Fim dos tempos.
Tempo ruim que não pode mais ser.

Eu tenho o que os suínos e tantos outros seres não tem.
Eu tenho a palavra
A voz mediada por ela,
E alguma consciência que me veicula.
Tenho direitos e deveres.
Tenho uma identidade.
Sou alguém.

Sou alguém
Que não é ninguém,
Mas alguém no meio desta merda toda.
Ou eu cago mais e me emporcalho
Ou eu me limpo e me “humanizo.”
Não humanizo o mundo,
Mas transcendo-o começando por mim.

E assim sigo a minha viagem
Veiculada por alguma consciência
Que me faz ultrapassar os porcos,
Que me ultrapassam quando distraio,
Mas que ultrapasso novamente, incessantemente ...
 Definitivamente, somente
 CONSCIENTE sem a mente que mente

Para a consciência não doer
A gente faz como toda gente
Se anestesia contando e recontando
Mentiras que mente gosta
Para consciência se manter limpa
A gente faz como Pilatos:
Lava as próprias mãos.

Travestida de consciência limpa
A gente se veste como toda gente
Traveste o nosso olhar
Traveste a nossa escuta
Traveste o nosso discurso
Vestido de boas intenções
A gente não se desnuda

E assim a gente segue em glória emporcalhando tudo...







segunda-feira, 20 de agosto de 2018

QUERES


Dedico esta poesia ao Gabriel e a tantos outros como ele que cruzaram o meu caminho apontando um caminho que ainda não sei percorrer



Queres que eu saiba
Quem eu sou
Como posso não saber?
Se sou eu quem vivo
O que sou de fato
E vivo o fato de não ser
O que queres que eu seja

Sei que não sei claramente
O que sou na sua cabeça
Mas temo saber  e fujo
Do monstro oculto que me oculta
Tentando esfacelar o meu ser
Transformando-me naquilo que não sou
Para ser algo que valha à pena
Para tu que tens pena de mim

Queres que saiba o que tenho
Como posso não saber?
Tenho tudo que me desvaloriza
Aos olhos de quem tem valores
Que não cabem em mim
Ao mesmo tempo...
Não tenho nada que lhe preencha

Queres que eu entenda com seu cérebro
Abortando a minha razão
Que eu entenda o seu mundo
E me desentenda com o meu
Que eu acredite estar errado
Para seguir o seu caminho certo
Legitimando a minha ignorância
No reinado de sua prepotência

Queres que eu aceite o seu mundo
Quando não aceitas o meu
Bombardeia o meu ser
Com diagnósticos tirânicos
Que me destroem
Construindo o código internacional
Do ser patológico perfeito
Que justifique e sirva de álibi
Para  suas boas intenções

Queres que eu veja com seus olhos
Que eu fure os meus
Que eu ateste a minha cegueira
Enxergando com a sua
Que eu aceite ser guiado
Com a sua bengala
E tropece em mim

No espectro da normalidade
Que caracteriza seu mundo
E me descaracteriza
Não consigo Ser
Normal leve
Normal moderado
Ou normal severo

Queres que eu enxergue e aceite
A minha deficiência
Sei lá para que...
So sei que há uma razão
Para eu ser assim
Tão diferente de você
Razão que sua razão desconhece
E o meu coração  apetece

Sei de muitas coisas
Que você jamais saberá
Sei de mim
Embora pense o contrário
Sei o que aprendi
Em cada olhar de rejeição
Nos bulings que sofri
Nos espaços que não existem para mim
E naqueles que só existem em mim

Sei muito de mim
Você é quem não sabe
Ao contrário de ti
Compreendo a sua deficiência
O seu medo de perceber
O que te ultrapassa
E se perder
Por isso não quero para ti
O que queres para mim

Queres tanto para mim
Desejos seus
Queres que eu não queira
Desejos meus
Queres o que lhes ensinaram a querer
E que graças à minha deficiência
Eu jamais aprenderei