domingo, 28 de maio de 2023

TIRARAM UM PEDAÇO DA LUA

                                          

                                                   


Transitei tantos anos pelos caminhos da astrologia e somente hoje enxergo, como nunca enxerguei antes, o impacto e a representação que a lua tem não somente nas minhas emoções, mas sobretudo na vida de minha mãe e em toda história que construímos juntas. Dedico esta poesia a ela, cuja demência lhe roubou um pedaço da lua e também a todos que não sabem lidar com os "despedaços" dela.


Como uma caçadora de lua

Buscando o encontro com o brilho

Que se apaga devagarinho 

Indignada com a visão perdida

Afirma uma nova certeza

 Fruto de um estranho olhar

"Está faltando um pedaço da lua!

Roubaram uma parte dela!"

Como a Lua Cheia

 Sempre amada por inteiro

Um olhar se partiu

Partindo a beleza

Daquela lua

Que hoje  não é mais a mesma.

Diferente...

Estranha...

A diferença que lhe roça

Fere! 

A estranheza que lhe toca

Doi!!!

Quase irreconhecível 

A Lua se estranha!

Sem a mesma forma

Se deforma!

Sem o mesmo brilho!

Se apaga!

Sem o mesmo encanto

Se desencanta!

Se eu conhecesse a face escura da lua

Eu diria que ela está virando...

Revirada

Quase irreconhecível

Bate de frente

Com o que sempre evitou

Corre atrás do que perdeu

" Cadê meus óculos”?

Sem saber onde pôs o seu olhar

Olhar perdido

Não quer óculos

Quer um olhar novo

Um olhar só seu

Não quer nossos olhos

Quer o seu

Que mesmo tortos

Enxergam o que a gente não vê

Ama mais o seu estrabismo

Do que a nossa visão "certa"

Para ela incerta  demais

Sem querer enxergar o que não é dela

Cansada de se ver com o olhar do outro

 Insiste não ver mais

Agora, “olhar só seu”!

Saber só seu

Quer saber

Saber de tudo

Que não sabia saber

Acolhendo a sua suposta ignorância

Sábia ignorância!

Rejeita toda e qualquer ignorância

Travestida de sabedoria.

Hoje sabe

Sabe quem é o culpado da lua partida

Diz ser um meteoro

 Uma pedra gigante

Que voando como flecha

Veio de um espaço

Que não consegue situar

Numa velocidade gigante

Que não consegue mensurar

Num tempo longínquo

Que acreditou nunca chegar  

Certeiro acertou a lua

Arremessando-a estilhaçada

Nas profundezas do mar

No mar de descontentamentos

A maré vai subir

Vai cobrir tudo

A lua vai sumir

É só uma questão de tempo!..

Enfim...

Em linhas e entrelinhas

Minha mãe me disse tudo isso

Eu não acreditei

Ironizei

Tentei convence-la do contrário

Se manteve irredutível

Me debati

Desesperei

Fechei os olhos para não ver

Com o coração partido

Aos trancos e barrancos

Despedaçada como a lua

Aceitei o inevitável

Falta mesmo um pedaço da lua!

A cada dia um pedaço se vai...

Dos meus "despedaços"

Me recrio

Da lua minguante

Criei uma lua nova

Que cresce em mim

Cheia de imaginação.

Em novos horizontes

Nascendo imensa

Como um sol

A iluminar minha escuridão

Emerge com toda potência

Do mar de minha alma

De alma lavada

Eu sigo

Agora aberta e mais leve

Criativa como criança

Bem juntinha da mamãe

Contando e recontando

As histórias da Lua